domingo, 31 de dezembro de 2017

Brisa da noite

Abraça-me brisa da noite,
aquieta meu sono
e leva-me contigo no passeio dos murmúrios
das folhas a balançar.

Abraça-me brisa
e faze-me esquecer
de tudo em mim
para que inexistente
de qualquer vida que tenha vivido
possa ser outra existência.
Livre de lembranças boas e ruins.
Livre de erros e acertos
Livre de culpas e medos.

Abraça-me brisa da noite
como uma mãe abraça seu bebê.
No seu colo leva-me para sempre,
para longe, bem longe de mim.
Leve-me para longe do que fui e,
do que virei a ser.

Helena Rosali

sábado, 25 de novembro de 2017

As Flores

Eu poderia colher as flores
mas agora não
preciso esquecer do inverno
as flores congelariam em minhas mãos
ainda não poderei colher as flores
observo-as no jardim
perfumadas, coloridas vivas

algumas murcham no meio do verde vivo
que a chuva trouxe
e debruçam sobre si mesmas
esperando que os dias lhes levem as cores

Não, eu não posso colher as flores
ainda não posso
preciso aquecer minhas mãos
preciso ainda sentir o perfume
e aquecer minha alma.
Só depois, poderei colher as flores.

Helena Rosali

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O jeito do tempo

Festejei o tempo
ao notar na face
os primeiros sinais
da existência.

Alegre,
em cada curva uma marca,
doce e dolorida
enfeita os sorrisos
que agradecem a Deus.

Eita, que o tempo chega
e faz de um jeito
que a gente não sente
E desapercebido se mostra
no rosto, nas mãos, nos pés.

Nos pés que, antes andarilhos,
diminuem as pegadas.
Nos ossos que, antes fortes,
fraquejam nos obstáculos.

Eita que esse tempo
é de um jeito
que enfeita de gracejos
as horas de todos os dias.

Helena Rosali

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Netinho

Meu netinho querido, te esperei tanto
e, por tantos anos desejei olhar
seus olhos e sorrir teu sorriso
brincar de vozinha com brinquedos
pela casa e cheiro de bolo
assando no forno

Seu riso correndo no jardim
seus pés de barro sujando
a casa limpa,
a pipoca esparramada
no chão da sala e
o desenho animado repetido
incontavelmente
assistido com você.

Querido do meu coração,
um dia vou te contar histórias
de brinquedos e invenções
que presenciei, que criei.
Vou falar
de sonhos e tradições de nossas famílias.
Vou te contar o modo fácil de aprender
sobre a vida
deixar que você sorria
de meus cabelos brancos e pergunte:
Por que são brancos vozinha?
Certamente direi: Cada um desses fios brancos
representam o amor de tantos dias
importantes que enriqueceram minha vida,
para que pudesse te encontrar hoje
e contar pérolas entesouradas
no baú da experiência.
Helena Rosali


domingo, 2 de julho de 2017

Outono passou e as folhas continuam caindo



Outono passou e as folhas continuam caindo. As ruas folham-se de diversas árvores as quais, as donas de casa teimam em limpar todas as manhãs, entre xingamentos e promessas de aniquilação de cada uma das espécies de árvores existentes. Algumas empregadas domésticas tentam se livrar das folhas com jatos de água e deixam que se entulhem nas calçadas vizinhas que com, alguma razão, provocam reclamações, brigas e intrigas com as donas da casa e com as outras empregadas domésticas.
 Um festival velado a cada manhã. Conflitos humanos, bobagens diante de um universo de grandiosidades e belezas infindáveis: o sol doando cores, calor e vida; o céu azul tingido de cinza ensaiando uma chuva; o perfume do jasmim estrela ainda com o cheiro da madrugada; a terra vermelha, argilosa e linda se esfarelando no vento que pousa nos móveis da sala onde é possível desenhar um coração; os risos das crianças no parque ali perto, correndo na grama e alegrando os olhos e a vida do futuro. Muitas pessoas fazendo caminhada, muitas praticando exercícios físicos, idosos jogando dama e outros apenas batendo papo.
Depois, a tarde quase em silêncio sente o cheiro da fumaça de mato sendo queimado.A qual torna a respiração difícil e destrói todo trabalho que deu para lavar a roupa. Então, a água tão preciosa acaba sendo desperdiçada por culpa da irresponsabilidade alheia. E mais trabalho de acumula na lavanderia e na vida contada de minutos no dia a dia de um lar.
O violão sendo dedilhado na sala escura em dia de chuva, quando os acordes compõem música com as gotas d’água que caem do telhado; um ipê roxo aquecendo as cores do inverno; um tanto do mundo impossível de citar.

Helena Rosali